Em Roma, no fim de maio, a Ferrari atravessou talvez a fronteira tecnológica mais relevante para a marca em muitos anos. O modelo se chamava Luce, palavra italiana para luz, e seria a primeira Ferrari totalmente elétrica da história.
Horas depois, o papel da Ferrari mergulhou 8,3% em Milão e 5,3% em Nova York, e a frase mais lembrada do dia não veio de um analista, veio de Luca di Montezemolo, o homem que comandou a marca em sua era de ouro. “Estamos arriscando a destruição de um mito. Espero que pelo menos retirem o Cavalo Rampante desse carro.”
Montezemolo não falou em motor, autonomia ou desempenho. Quer dizer, não falou apenas nisso. Falou em mito. E quem critica em nome do mito está dizendo algo técnico, ainda que pareça sentimental: a marca atravessou a única camada que não devia ter atravessado.
Toda marca consolidada vive de um mito, e o mito quase nunca é o produto em si. Um Hermès vende a costura de Paris antes de vender a bolsa. Um Rolex vende a precisão suíça antes de vender o relógio. Uma Ferrari vende uma certa italianidade barroca, agressiva, mecanicamente visível e a velocidade completa esse conjunto. Quando o cliente paga seiscentos mil dólares por um carro, está pagando pelo que o cavalo de Maranello representa antes de pagar por um conjunto de peças.
Mitos têm uma característica curiosa: levam décadas para se construir e podem ser danificados em uma única apresentação. A reportagem do Brazil Journal trouxe um comentário cirúrgico de um especialista do setor sobre o visual do novo carro: se você olha uma foto de um Luce e de um U9 Xtreme, qual carro você diria que é o chinês? Provavelmente o Luce. A frase não diz que o carro é feio, diz que ele é apátrida.
Quando uma Ferrari passa a parecer um veículo genérico de luxo global, o que se perdeu não foi um detalhe estético, foi o endereço. E marcas de luxo, em última instância, vendem endereços. Hermès vende Paris. Rolex vende Genebra. Vale registrar que o design do Luce contou com a participação de Jony Ive, o ex-diretor de design da Apple, cuja assinatura é a gramática global do minimalismo. Não cabe julgar o trabalho dele, mas a escolha em si comunica algo sobre o tipo de identidade visual que a marca passou a considerar apropriada. Foi parte do que o mercado leu na manhã seguinte.
Reprodução: ferrari.com
Há ainda um aspecto sobre o qual quase ninguém escreve. Toda decisão de mexer no mito é, no fundo, uma decisão de troca de cliente. A Ferrari Luce não foi pensada apenas para o colecionador europeu “old school” com uma F40 na garagem. Foi pensada também para o herdeiro de 28 anos em Dubai ou Xangai, para quem a sustentabilidade é parte do que se espera de uma marca contemporânea. Os números justificam a aposta: a Bain projeta que Gen Z e Millennials já respondem hoje pela maior parte do consumo global de luxo, e que a Gen Z sozinha representará 40% do mercado de luxo pessoal até 2035.
Mesmo com esses dados, é necessário pés no chão. O cenário de eletrificação no setor automotivo, aliás, atravessa um momento de recalibragem. As vendas de elétricos nos EUA caíram 27% no primeiro trimestre após o fim do crédito fiscal de US$ 7.500. A tendência se mantém, mas o ritmo é menos linear do que as projeções mais otimistas indicavam.
A Ferrari, aliás, já demonstrou capacidade de recuar. No Investor Day de outubro passado, a marca reduziu as próprias metas de eletrificação, embora tenha mantido o compromisso de chegar a 20% da linha em versões elétricas até 2030. A Ferrari Luce é o primeiro passo desse caminho recalibrado.
Há quem veja no modelo uma evolução necessária diante de uma indústria que muda, e há quem sinta que foi neste momento que a Ferrari deixou de ser aquilo pelo que se apaixonaram no início, o pôster do carro esporte vermelho pendurado na parede do quarto. Resta saber se a luz que dá nome ao modelo será a do amanhecer de uma nova era para Maranello, ou a daquele facho breve que ilumina o erro antes de a casa voltar à penumbra do que sempre soube fazer. O mito do Cavalo Rampante segue correndo, nas pistas e no imaginário. Por enquanto.
A Portofino Multi Family Office foi eleita a Best Multi Family Office Brazil pela Citywire (2024 e 2025) e premiada pela Euromoney como Best Family Office Services Brazil (2024) e Best Independent Wealth Manager for Digital Solutions (2026).
Imagem em destaque: ferrari.com



