Kevin Warsh, novo presidente do Fed, chega em meio à guerra de Trump por juros mais baixos

maio 15, 2026 | Investimentos Internacionais, Family Office

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Há um detalhe quase irônico no momento em que Jerome Powell deixa a presidência do Federal Reserve. Donald Trump escolheu seu sucessor com uma missão precisa: cortar juros. E, ao mesmo tempo em que articulava essa sucessão, o presidente americano sustentava políticas que pressionam a inflação na direção contrária. Tarifas sobre meio mundo, conflito aberto com o Irã, petróleo em alta. O homem que mais quer juros baixos nos Estados Unidos é também o que cria parte do ambiente que os mantém altos.

É a contradição que define o momento mais delicado do banco central americano em décadas. E para entendê-la, vale começar não pelo sucessor, mas por quem está de saída.

O erro do ‘transitório’ e a cicatriz que mudou a política monetária do Fed

Em 2021, quando a inflação pós-pandemia começou a subir, Powell e sua equipe sentenciaram que o fenômeno era “transitório”. Não era. A inflação se mostrou consideravelmente mais persistente do que o cenário base do Fed previa, e o banco precisou correr atrás, elevando juros de praticamente zero para mais de 5% em pouco mais de um ano. Foi um erro de diagnóstico de proporções históricas, e custou caro aos americanos em poder de compra. Críticos, à direita e à esquerda, apontam que a tardia mudança de postura do Fed transformou um problema gerenciável em um problema estrutural.

A lição interna do banco, desde aquele episódio, ficou clara. Não por convicção hawkish, mas pela memória recente de ter agido tarde demais na direção oposta. É essa lógica de retaguarda, mais do que qualquer tese econômica refinada, que sustenta a paciência atual do comitê.

A pressão da Casa Branca e a postura do Fed

Trump foi explícito sobre o que pensa de Powell. Em rede social, em entrevistas, em comícios, repetiu que os juros deveriam estar muito mais baixos e que o presidente do Fed era um obstáculo. O argumento, do ponto de vista da Casa Branca: o mercado de trabalho dá sinais de desaceleração, partes da economia sentem o aperto monetário, e parcela dos economistas sustenta que o choque tarifário seria, em tese, um evento de ajuste único, não inflação genuína.

Powell discorda, e tem mantido a linha. O Fed, sob seu comando, optou por uma combinação de paciência com gradualismo, recusando-se a antecipar cortes que considera prematuros e gerindo o relacionamento com a Casa Branca pelo silêncio público. O presidente do banco central tem repetido, quando provocado, que a instituição responde a dados, não a declarações políticas.

A relação azedou de vez em janeiro, quando o Departamento de Justiça abriu uma investigação criminal contra Powell sob o pretexto de irregularidades na reforma bilionária do prédio do Fed em Washington. Um juiz federal classificou a operação como mecanismo para pressionar o chair a cortar juros ou renunciar, leitura contestada por parte do Partido Republicano, que sustentava motivação legítima de fiscalização de gastos públicos. A investigação foi arquivada poucos dias antes da confirmação do novo presidente do banco. Em paralelo, a tentativa da Casa Branca de demitir a governadora Lisa Cook segue aguardando julgamento na Suprema Corte.

Em sua provável última reunião à frente do comitê, no dia 29 de abril, Powell manteve a taxa entre 3,5% e 3,75%. A votação, porém, revelou algo que o nível dos juros não contava.

Um comitê dividido como não se via há 33 anos

Quatro membros dissentiram naquela reunião. Não acontecia algo assim desde outubro de 1992. Mais curioso ainda, os dissidentes queriam exatamente o oposto do que Trump deseja: pediam que o comunicado abandonasse a linguagem que sugeria cortes à frente. Susan Collins, do Fed de Boston, foi explícita ao dizer, dias depois, que preferia retirar do texto qualquer presunção de que o próximo movimento seria de queda.

O motivo é prosaico. A inflação não saiu. O núcleo do PCE, indicador preferido do Fed, segue rondando 3,5%, bem acima da meta de 2%. As tarifas, originalmente vendidas como instrumento de pressão comercial, se transformaram em imposto inflacionário sobre o consumidor americano. E o conflito com o Irã reabriu uma frente energética que ninguém previa quando o nome do sucessor de Powell foi anunciado.

É nesse cenário, e não em outro, que Kevin Warsh entra em cena.

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O Warsh de 2008 e o Warsh de agora

Na quarta-feira, 13 de maio, o Senado americano confirmou Warsh para a presidência do Federal Reserve. A primeira reunião sob seu comando está marcada para 16 e 17 de junho.

Há uma curiosidade biográfica que vale o registro. Warsh já passou pelo Fed. Sentou-se no Board entre 2006 e 2011, durante a presidência de Ben Bernanke, e atravessou a crise financeira de 2008 no posto. Naquela época, fez fama de hawk, daqueles que preferem juros altos para conter inflação mesmo ao custo de algum atrito com o crescimento.

Nos últimos anos, contudo, sua retórica mudou. Passou a defender publicamente que o Fed cortasse juros e reduzisse o tamanho de seu balanço. Foi essa segunda fase que o credenciou aos olhos de Trump, e seus discursos e artigos no Wall Street Journal forneceram a trilha sonora desejada pela Casa Branca.

Resta saber qual Warsh sentará à mesa do FOMC.

Por que a entrada de Warsh, sozinha, não muda os juros

A taxa básica de juros americana não é decidida pelo presidente do Fed. É decidida pelo Federal Open Market Committee, o FOMC, composto por doze votantes. Sete são governadores do Board, indicados pelo presidente da República e confirmados pelo Senado, com mandatos escalonados de 14 anos. Os outros cinco vêm dos doze bancos regionais. O presidente do Fed de Nova York vota sempre. Os outros quatro assentos rodam anualmente entre os onze presidentes regionais restantes.

Warsh entra como mais um voto entre doze, e como a voz mais influente, sim, mas não como ditador da política monetária dos Estados Unidos. Para virar o tabuleiro, Trump precisaria de algo bem mais difícil que uma confirmação no Senado. Precisaria de tempo, várias vacâncias simultâneas e uma maioria política disposta a ratificar nomeações que muitos democratas, e alguns republicanos institucionalistas, considerariam um ataque à independência do banco central.

É por isso que a estratégia da Casa Branca tem sido outra. Em vez de tentar conquistar o comitê numa única tacada, vai erodindo as bordas. Stephen Miran, que ocupou interinamente o assento de Adriana Kugler, dissentiu pedindo cortes. A tentativa de demitir Lisa Cook segue na Suprema Corte. A investigação contra Powell, mesmo arquivada, deixou marcas. A pergunta que paira sobre Wall Street não é mais se a independência do Fed está sob pressão. É se essa pressão acabará por revelar fragilidades institucionais reais ou, ao contrário, fortalecer os contrapesos.

O que o CME FedWatch revela sobre as expectativas para os juros

Enquanto a política tenta moldar o banco central, o mercado já fez sua leitura. O CME FedWatch, ferramenta que extrai probabilidades dos contratos futuros de Fed Funds, mostra para a reunião de junho 98,5% de chance de manutenção da taxa, 1,5% de corte e zero por cento de alta. É o consenso mais alinhado em meses. Wall Street, simplesmente, não acredita que Warsh terá margem para entregar o que Trump quer, ao menos não no curto prazo.

Para alocadores de longo prazo, o desenho do FOMC, com seus mandatos escalonados, suas vozes regionais e sua tradição de dissidência, foi construído precisamente para suportar pressões como esta.

Probabilidades CME FedWatch para reunião do FOMC de junho de 2026: 98,5% manutenção, 1,5% corte, 0% alta

O legado de Powell e o teste de Warsh

Powell deixa o cargo como uma figura que dividirá historiadores. Para uns, foi o presidente do Fed que errou no diagnóstico da inflação e demorou para reagir, mas que segurou a postura institucional sob pressão sem precedentes. Para outros, foi o tecnocrata “teimoso”, como diz Trump, que prolongou um aperto monetário desnecessário e custou crescimento ao país. Há argumentos para os dois lados. Powell, vale registrar, permanecerá no Board até pelo menos 2028. Sua cadeira de chair sai, mas sua voz no comitê não.

Warsh, por sua vez, herda mais do que um banco central. Herda um teste. O teste de mostrar se a independência do Fed depende de quem o preside ou de uma cultura institucional capaz de resistir mesmo quando o ocupante da cadeira foi escolhido justamente para flexibilizá-la. E, no caminho inverso, o teste de mostrar se essa cultura é robusta o suficiente para acomodar uma mudança de orientação legítima sem desestabilizar a credibilidade do dólar.

O que está em jogo, no fundo, não é se Warsh cortará juros em junho. No momento, as condições sugerem que não cortará. Mas, mais do que isso, o público quer ver como se comportará a independência do Federal Reserve em uma transição marcada por muitos contrapontos. Acompanhamos de perto.

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