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O que você precisa saber:
Nesta terça-feira (10), aconteceu o primeiro dia do CEO Conference Brasil 2026, evento promovido pelo BTG Pactual, que contou com a presença de diversas figuras importantes do cenário político e econômico, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, entre outros.
Cenário Econômico 2026
O evento começou com o ministro Fernando Haddad. Desde que anunciou que não continuaria na Fazenda, as expectativas são para quando ele irá sair e quem será seu substituto. Entretanto, ele disse que ainda não há data para sua saída e que ainda tem “últimas aparições” para fazer. Além disso, Haddad preferiu não cravar quem será seu substituto – Dario Durigan, secretário executivo do ministério, é apontado como o favorito – e evitou falar sobre os planos do presidente Lula para seu nome nas eleições. O ministro também aproveitou o espaço para fazer um balanço de sua gestão. Segundo ele, seu sucessor vai encontrar uma situação melhor do que quando ele entrou e citou que o seu grande legado é a reforma tributária: “o Brasil vai se tornar ainda mais atrativo aos investimentos também em função da reforma tributária”.
O Banco Central também foi pauta do evento. Apesar de ter afirmado que não vê razões para o atual nível de juros reais no Brasil, Haddad ponderou ser muito importante “cuidar” do BC. Ele ainda completou que a autarquia pode contribuir muito ou prejudicar muito os governos e o país. Por fim, a política fiscal, a qual o ministro afirmou que o nível da discussão tem baixa qualidade técnica. Em sua crítica, ele argumentou que o tema tem sido explorado pela imprensa e “monopolizado por desinformação”.
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Congresso Nacional em 2026: Perspectivas e prioridades
Na sequência, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, participou do evento. Também questionado sobre o Banco Central, ele foi categórico ao dizer que “não vamos pautar a revisão da autonomia do BC”. Para ele, a instituição precisa funcionar sem interferências.
A escala 6×1, outra pauta de grande repercussão na sociedade, Motta comentou que pretende votar a proposta em maio, mas vai conversar com Lula sobre o projeto. Por falar no presidente, Motta avaliou que Lula precisará entrar na agenda fiscal em 2027 caso seja reeleito para um quarto mandato.
Ele também analisou que a questão fiscal não estará no centro do debate eleitoral que, em sua visão, estará focado em temas do dia a dia da população. O político comentou sobre os aumentos de impostos do governo, afirmando que não vê mais espaço para essa abordagem em 2026. Para ele, “o Congresso pôde, ao longo dos últimos três anos, e mais especificamente em 2025, pactuar com o governo todo o aumento de arrecadação baseado na elevação de taxas e de impostos. Eu não vejo mais janela para aprovação de aumento de tributos no ano de 2026”.
Fireside Chat: Scott Bessent, Secretary of the Treasury of the United States
Para finalizar a parte da manhã do evento, em videoconferência, Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, falou sobre a indicação de Kevin Warsh para a presidência do Fed. Ele contou que participou do processo junto a Donald Trump e que ambos procuravam por alguém de “mente aberta”. Bessent disse que muitas pessoas perguntam para onde eles estavam olhando, se era alguém que fosse baixar os juros, mas, na verdade, queriam alguém de mente aberta. A experiência de Warsh com tecnologia e inteligência artificial também contribuiu para a seleção.
A inteligência artificial seguiu em debate quando o assunto foi os possíveis impactos da tecnologia no mercado de trabalho. Em análise, o secretário foi otimista quando afirmou que “historicamente, quando temos um boom de produtividade, há também um boom de empregos” e que o conhecimento em IA agrega muito valor para as pessoas. Não tinha como não falar em tarifas. Um dos grandes temas do governo Trump se destacou quando Bessent enfatizou que o final da política de tarifas “é a reindustrialização e o reequilíbrio da economia”. O debate do painel ainda se estendeu para uma análise global das relações internacionais.
- Venezuela: segundo o secretário, as pessoas no governo da Venezuela estão cooperando e acha possível ter eleições diretas no país. A parceria “é muito boa”, disse.
- Brasil: destacou que a relação entre os presidentes é de diálogo após um início turbulento.
Quando se fala de América Latina, ele analisou que o momento é “extremamente empolgante”. “Eu acho que esta é uma oportunidade geracional [para redesenhar as relações]”, disse Bessent, e citou a Argentina como exemplo da atuação norte-americana recentemente.
- China: a situação é bem confortável, caracterizou o secretário. “Queremos que nossa rivalidade seja justa. Não queremos nos afastar da China”.
TCU: Controle, Transparência e Desenvolvimento Econômico
O presidente do TCU, Vital do Rêgo, abriu os trabalhos da tarde com falas sobre as eleições de 2026. Questionado sobre o período em que as urnas eletrônicas foram colocadas em dúvida, ele foi firme: “contestar as urnas eletrônicas do Brasil era um plano que tinha objetivos claros. E agora todo mundo está sabendo qual era”. Além disso, fez questão de ressaltar a confiabilidade das urnas para a próxima eleição.
Para não ficar de fora do tema do momento, o presidente foi aplaudido pela plateia ao responder sobre a autonomia do Banco Central: “O BC é uma agência reguladora, então defendo sua total independência. Debater essa questão é um retrocesso absurdo”. 
O Futuro da Infraestrutura no Brasil
Neste painel, o ministro dos Transportes, Renan Filho, citou que, enquanto o governo Bolsonaro fez apenas 6 leilões em rodovias, o governo Lula irá realizar 36, com R$ 400 bilhões contratados. Ele aproveitou o espaço para ressaltar como o Brasil tem todos os ingredientes necessários para seguir em um “ciclo virtuoso” em infraestrutura. Segundo o ministro, o país se destaca em quatro pontos: projetos rentáveis na comparação internacional, a agenda de sustentabilidade, um mercado de capitais sofisticado e a relação internacional do Brasil. “O Brasil está em máxima histórica de investimento em infraestrutura”, disse.
Junto no debate, Silvio Costa, ministro dos Portos e Aeroportos, destacou as concessões no setor ao longo dos últimos anos. “Hoje, temos em contratos assinados mais de R$ 500 bilhões em todas as áreas de concessões”, afirmou. Assim como seu colega ministro, ele também comparou o governo Lula com o de Bolsonaro. Ele analisou que, em três anos de Lula 3, já foram mais de R$ 30 bilhões de concessões, enquanto no do ex-presidente, R$ 5 bilhões. Ele também citou o Banco Central e a política monetária, a qual “não tem por que a autoridade segurar a taxa de juros em 15%”. Em adição, aproveitou o espaço para defender e exaltar a importância da autonomia do BC.
Perspectivas da Macroeconomia Brasileira
Já na reta final, Eduardo Loyo, sócio do BTG Pactual, comentou as perspectivas da política monetária dos Estados Unidos. Na sua visão, uma abordagem que priorize a redução da inflação para a meta lhe agrada mais, mas entende a predisposição para o corte de juros. Ele ainda comparou que as condições para cortar os juros nos EUA são muito mais desfavoráveis do que no Brasil. Samuel Pessôa, pesquisador macroeconômico do banco, complementou: o comportamento de Trump só atrapalha o trabalho da condução de política monetária.
Aplaudido pelos presentes ao finalizar sua fala, Mansueto Almeida, sócio e economista-chefe do BTG Pactual, foi firme em sua crítica à situação fiscal e afirmou que, independentemente do vencedor da eleição presidencial, o próximo governo terá de conter o crescimento das despesas. Para o ex-secretário do Tesouro Nacional, a estratégia do atual governo não é sustentável – aumentar a arrecadação para cobrir as despesas. “Não podemos repetir nos próximos quatro anos o que foi feito nos últimos”, explicou. Ele também criticou o arcabouço fiscal, que inicialmente foi bem aceito, mas depois, segundo ele, perdeu a credibilidade com a criação de programas fora da regra.
O outro painelista, Tiago Berriel, sócio e estrategista-chefe, falou sobre política monetária brasileira. “É difícil fazer um ciclo de flexibilização monetária em ano eleitoral devido à variação do câmbio e ao expansionismo da política fiscal”, disse. E foi mais analítico: como o banco central vai reagir a esses riscos? Ele pensa que a autoridade pode começar com um ritmo mais lento de cortes e, a depender de como o ano se desenvolve, aumentar o ritmo.
Outlook de Grandes Gestores
Por fim, o primeiro dia terminou com o tradicional debate entre gestores.
André Jakurski, sócio-fundador da JGP, discorreu sobre os riscos geopolíticos, especialmente com o risco que ele definiu como “problema sério” em Taiwan. Sobre o Brasil, sua interpretação é de que o mercado ainda não está pensando em eleição, e acredita que, se o Lula for eleito para um quarto mandato, não haverá nada de novo.
A fala de Luís Stuhlberger, sócio-fundador da Verde Asset, sobre os Estados Unidos, se concentrou no campo político, onde demonstrou sua preocupação com as eleições de meio de mandato. Segundo ele, hoje há uma projeção de 38% e 100% de Trump perder o Senado e a Câmara, respectivamente. Para o Brasil, em caso de um Lula 4, ele concorda com a visão de André Jakurski de que não haverá uma reação instantânea. Contudo, ele alerta que a diferença desta vez é o cenário: maior dívida pública, juros mais altos e a carga tributária mais alta da história.
Encerrando a roda de conversa, Rogério Xavier, sócio-fundador da SPX Capital, acha que o Fed vai continuar cortando juros com Kevin Warsh. No campo da geopolítica, ele expôs uma visão diferente dos outros participantes quando diz acreditar que não vai ter uma agressão da China a Taiwan. “Vejo uma questão mais política do que militar”, explicou. Quanto ao Brasil? Para ele, as eleições são 50/50 – ou seja, não há nada definido. Entretanto, mesmo com essa divisão, disse que não haverá uma ruptura depois do resultado. Terminou a participação levantando uma provocação a todos os presentes: qual o motivo para as pessoas não discutirem o fato de ter um presidente com 81 anos? O CEO Conference Brasil 2026 retorna nesta quarta-feira (11) com outros nomes importantes.
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Imagem em destaque: Roque de Sá/Agência Senado
