A história de John Richard Simplot, o fornecedor de batatas fritas do McDonald’s que aportou US$ 1 milhão na Micron Technology em 1980 e ajudou a salvar a indústria americana de semicondutores.
Em 1980, o Vale do Silício estava perdendo. As tecnologias americanas, que sempre lideraram o mundo, perdiam espaço para os produtos japoneses produzidos por um custo muito mais baixo. Esse movimento pôs em risco a posição norte-americana de dominância no desenvolvimento de chips semicondutores.
O Japão havia decidido, uma década antes, que semicondutores seriam o pilar industrial do país. Toshiba, NEC, Hitachi e Fujitsu receberam crédito subsidiado, coordenação estatal e contratos garantidos. Quando começaram a exportar chips de memória DRAM para os Estados Unidos, fizeram a preços que nenhum americano conseguia praticar. A Intel, que havia inventado o DRAM em 1970, abandonou o produto em 1985. A Texas Instruments resistiu mais um tempo, depois também desistiu.
O consenso americano era de que o jogo estava perdido.
Enquanto isso, em Boise, capital de Idaho, uma empresa pequena chamada Micron Technology insistia em não morrer. Mal sobrevivia. Sem caixa, sem narrativa que mobilizasse o venture capital californiano, sem qualquer atributo que justificasse aposta racional. Ali poderia colocar fim à história de uma empresa que, em 2026, ultrapassaria a marca histórica de US$ 1 trilhão em valor de mercado, e a América teria perdido sua última fabricante de DRAM. Mas o jogo virou com a chegada de um senhor de chapéu de fazendeiro chamado John Richard Simplot.
Simplot não era engenheiro. Não era investidor de tecnologia. Era o homem que havia ensinado o McDonald’s a congelar batatas fritas e, a partir dessa ideia trivial, construído um império bilionário a partir de Idaho. O aporte de US$ 1 milhão na Micron em 1980 se transformou, ao longo das décadas seguintes, em participação avaliada em mais de US$ 1 bilhão. Mas o retorno financeiro é a parte menos interessante da história.
A Micron sobreviveu fazendo o oposto do que se esperava de uma empresa americana de tecnologia. Não venceu pela inovação radical. Os engenheiros da Micron trabalharam, claro, para manter o padrão técnico que se espera de uma empresa americana do setor. Mas a vitória veio de outro lugar: da obsessão em cortar custos, refinar processos e extrair eficiência de cada wafer de silício.
Chris Miller resume com precisão em Chip War: “A tecnologia avançada por si só não bastava para salvar a indústria de DRAM dos EUA. A Intel e a Texas Instruments tinham muita tecnologia, mas não conseguiam fazer o negócio funcionar. Os desajeitados engenheiros de Idaho da Micron superaram os rivais de ambos os lados do Pacífico com sua criatividade e a habilidade de cortar custos”.
Há algo profundamente subversivo nessa passagem. A narrativa americana sobre semicondutores costuma celebrar o gênio criativo, o garage startup, o salto disruptivo. A história real da única sobrevivente americana de DRAM segue outro roteiro. A Micron venceu porque aplicou ao silício a mesma lógica com que Simplot havia ganhado o mercado de batata congelada: padronização implacável, custo unitário cravado no chão, escala extraída na base da paciência.
Quarenta anos depois, a Micron é uma das três únicas fabricantes globais de DRAM, ao lado de Samsung e SK Hynix. Empresa de relevância estratégica para a segurança nacional dos Estados Unidos. Sem ela, não haveria sequer narrativa americana de soberania em chips de memória. O homem das batatas, sem saber, financiou um dos pilares da tecnologia que hoje sustenta desde o data center que processa inteligência artificial até o míssil de precisão guiado por satélite.

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