(Tempo de leitura: 5 minutos)
O que você precisa saber:
- O embate entre Trump e Powell aumenta as tensões às vésperas da reunião de juros
- O presidente do Fed publicou vídeo criticando a ação do governo
- Para ele, se trata de uma ameaça clara à independência da autoridade monetária
O ano de 2026 começou carregando as mesmas tensões que marcaram o fim de 2025. Entre elas, a relação cada vez mais conturbada entre Donald Trump e Jerome Powell, tendo a independência do Federal Reserve como pano de fundo.
As tensões voltaram a escalar já na segunda semana do ano, após o Departamento de Justiça dos Estados Unidos enviar ao Federal Reserve uma intimação relacionada à investigação que apura se Powell teria mentido ao Congresso. O foco do depoimento são as reformas na sede do Fed, em Washington, que envolvem a expansão e modernização de dois edifícios da década de 1930, com custo estimado em US$2,5 bilhões.
As pressões do governo sobre o Fed – especialmente de Trump – não são novidade. O elemento novo, desta vez, foi a reação de Jerome Powell. O chair se manifestou por meio de uma gravação, na qual afirmou que o processo está diretamente ligado à resistência do Fed em atender aos pedidos do presidente por cortes mais agressivos na taxa de juros. Para Powell, trata-se de uma ameaça clara à independência da autoridade monetária.
“É uma consequência do fato de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que será melhor para o público, em vez de seguir as preferências do presidente”, disse o dirigente.
Trump, por outro lado, negou que tenha qualquer relação com a acusação. A negativa, contudo, não arrefeceu as reações. Presidentes de bancos centrais ao redor do mundo assinaram uma carta conjunta em apoio a Powell, criticando qualquer tentativa de interferência política sobre a condução da política monetária e reforçando a importância da autonomia institucional do Fed. (Leia o documento mais abaixo)
O episódio se soma a uma longa lista de atritos entre o governo e o banco central. Entram nessa conta o processo contra Lisa Cook (entenda aqui), as críticas públicas e até os insultos direcionados a Powell em meio às pressões por cortes mais rápidos e profundos nos juros.
Na última reunião do ano, o Fed reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para 3,5% a 3,75%, em decisão dividida: Stephan Miran — recém indicado por Trump — defendeu um corte maior, de 0,5 ponto, enquanto outros dois membros, Jeffrey Schmid e Austan Goolsbee, votaram pela manutenção. O comitê sinalizou apenas um corte adicional para 2026, ressaltando a incerteza quanto às perspectivas econômicas. Após os dados de inflação mais recentes, Trump voltou a pressionar por cortes mais agressivos nos juros.
Em tempo, a mudança no comando do Fed é um tema para acompanhar de perto. Trump já comunicou sua preferência por um nome mais alinhado às suas preferências e afirmou, inclusive, que o substituto de Powell já estaria escolhido. A decisão deve ser anunciada em breve.
Confira a carta assinada pelos presidentes de BCs ao redor do mundo.
13 de janeiro de 2026
Manifestamos total solidariedade com o Sistema do Federal Reserve e seu chair, Jerome H. Powell. A independência dos bancos centrais é um pilar da estabilidade de preços, financeira e econômica, no interesse dos cidadãos que servimos. Por isso, é fundamental preservar essa independência, com pleno respeito ao Estado de Direito e à responsabilidade democrática. O chair Powell tem exercido sua função com integridade, foco em seu mandato e compromisso inabalável com o interesse público. Para nós, ele é um colega respeitado e amplamente reconhecido por todos que trabalharam com ele.
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, em nome do Conselho do BCE
Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra
Erik Thedéen, presidente do Sveriges Riksbank
Christian Kettel Thomsen, presidente do Conselho de Governadores do Danmarks Nationalbank
Martin Schlegel, presidente do Conselho de Governadores do Banco Nacional da Suíça
Ida Wolden Bache, presidente do Norges Bank
Michele Bullock, presidente do Reserve Bank of Australia
Tiff Macklem, presidente do Banco do Canadá
Chang Yong Rhee, presidente do Banco da Coreia
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil
François Villeroy de Galhau, presidente do Conselho de Diretores do Banco de Compensações Internacionais
Pablo Hernández de Cos, diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais.
Imagem em destaque: The White House

